Nova Era

Acabaram-se os abraços e os beijos.
Chegou a solidão por tantos almejada, o início do ócio, da pacatez.
Aniquilaram o stress, o andar nas ruas, a azáfama dos centros comerciais, as filas de trânsito e a poluição.
Já não há escola, já não há empregos rotineiros.
Uma nova Era começou.
Abraçamos e beijamos virtualmente e só agora sentimos a ausência da carne que durante anos colmatamos com emojis.
Vive-se o ócio e a pacatez do lar, sem ruas e trânsito e filas e poluição.
Come-se sem esbanjar. Raciona-se o pão. Comem-se até as migalhas que caem no chão.
Uma nova Era começou.
Já não odiamos ninguém. Respira-se amor virtual, solidariedade e fraternidade.
Já não prendemos ninguém em gaiolas.
Hoje somos todos gaiolas.
Somos as frágeis presas do invisível vilão.
Aproveitemos a imposta solidão.
Uma nova Era começou.
Hoje quem morre, parte sozinho.
Na despedida não estão os amigos, nem a família, nem os conhecidos, nem o padre, nem tão pouco a carpideira.
Não, ninguém os abandonou no caixão, sem eira nem beira.
Uma nova Era começou.
Hoje somos todos seres em reclusão.

© Balthasar Sete-Sóis

Publicado originalmente em:
https://m.facebook.com/events/158588935316531?view=permalink&id=172448457263912

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1 thought on “Nova Era

  1. Avatar

    Mais um excelente poema, um retrato dos tempos que correm e as preocupações e dúvidas do poeta. Parabéns

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