Monstro

Quando te olho, vejo-te translúcida e opaca, ambígua nos opostos compostos por matéria imaterial e ininteligível para os comuns que, no éter dos dias líquidos, se julgam imortais.

Do breu do olhar sobressai uma luz por onde brota uma menina monstro, de aspecto dantesco e sobrenatural, maquilhada pelas mais belas bases de um comportamento bipolar, esquisito, anormal, esquizofrénico, louco e animal.

O teu odor é doce, carente, sem porquês e nas mãos, de pura seda, procuras segurar as vidas de todos os que caem desamparados e sem arnês.

Foges do toque como da cruz e emanas uma sombra que me conduz por entre o caos que habitas e onde ordenas pensamentos talhados na mais pura filigrana.

Tacteias livros pejados de letras sem significado, sem passado, sem corrente, latente nesse devaneio pesado e pejado de ânsias sem presente.

Perdida do mundo, encontrada em ti, exorcitas palavras certeiras e avulsas mas nem assim os teus demónios expulsas.

Os outros não te vêem como eu vejo, desconhecem que monstros trazes dentro desse peito que guarda uma fragilidade tão flexível como aço.

No corpo trazes as marcas fundas dos julgamentos alheios e eu leio as runas incandescentes que te escorrem pela espinha, guiando-me por contornos de uma estória que nunca será a minha.

Levanto-me, abro a porta e saio, deixando entrar a solidão desesperada que te espera lá fora. E na companhia do vazio estrelado permaneces sentada, sujando de letras a folha de papel onde deitas, carinhosamente, a canção que embalas ao som de uma voz que não te pertence.

Quem te lê confunde-se nos labirintos das palavras que julgam estranhas pois não sabem que tens o coração no chão e que me deixaste um athame espetado nas entranhas.

© Balthasar Sete-Sóis

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