O Homem do Abraço de Gaivota

Ainda a noite era uma criança quando o vi pela primeira vez.

“É o homem do coração de ouro”, diziam num burburinho frenético. Percebi que assim era quando ele se aproximou e iluminou os olhos de todos quantos o abraçaram sem que os braços se enlaçassem ou que corpos se tocassem.

Fiquei estarrecido e sem reação, olhando para aquele cenário pejado de afeto, reconhecimento e gratidão.

Até àquela noite, vivi com a convicção de que aquele tipo de homem já havia entrado em extinção. Não me lembrava da última vez que havia avistado algum, se é que algum dia avistei. Talvez tivesse acontecido, não sei bem se vi na televisão ou se foi apenas fruto da minha imaginação.

Mas ele era real, toquei-o, ouvi-lhe a voz e senti o cheiro das letras impregnadas no corpo daquele homem doce e de coração cheio.

Bebi-lhe as palavras que melodiosamente deixou esvoaçar como borboletas coloridas pelo espaço bruxuleante, semeando cenários e sentimentos sobre as cabeças avulsas por onde ecoava o silêncio estridente da poesia.

As suas delicadas mãos desenhavam no ar os afetos com que temperava cada sílaba adjetivada pela candura da dança fonética com que embalava os corações da assistência que permanecia estática e inebriada.

Sem pestanejar, saboreei o mel libertado da sua colmeia, em favos de frases doces, dotadas de respeito, sem letras bífidas ou pontuações viperinas.

Ele era assim, um homem inteiro nos seus retalhos, que seguia o seu caminho sem a tentação frágil dos atalhos.

Hoje não é mais um estranho, é um irmão de sangue e de coração, capaz até de me curar das maleitas feitas de aço e algodão, mas sempre sem verbalizar a acidez emoliente do limão.

©

Balthasar Sete-Sóis

(Dedicado ao poeta e amigo Vítor Costeira)

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