Estrada

Os búzios espalhados em cima da mesa, confirmavam o diagnóstico apresentado pelos médicos. Paulo Rezende, famoso foto-jornalista brasileiro, iria cegar, vítima de uma terrível diabetes.

A Mãe de Santo não falhava, sabia-o, mas da sua boca saíram as palavras mágicas que indicavam o caminho para a salvação. Se Paulo pretendia fintar o destino, teria de percorrer, tal como Saulo, a Estrada de Damasco e, quando entrasse na cidade, encontraria a cura. A profecia repetia-se e Jesus, mais de 2000 anos depois, escolhera-o a ele.

Abdel Sofin, de apenas 15 anos, tinha um tremendo orgulho no seu nome e sentia que este o levaria a grandes feitos. Quantos se poderiam orgulhar de ter um nome cujo significado fosse “Devoto servo de Allah”?

Era grato ao profeta, por tê-lo escolhido, iluminando seus pais, aquando da escolha daquele nome. De Alcorão debaixo do braço, livro que já sabia de cor, valendo-lhe o título de aluno brilhante, decidiu que a partir daquele dia, Allah e o profeta Maomé, se orgulhariam dele, por toda a eternidade.

Meses mais tarde, Paulo percorria a pé a Estrada de Damasco, como lhe havia sido indicado pela Mãe de Santo. A paisagem era completamente diferente daquela beleza bíblica que idealizara.

Adbel aguardava atrás da vegetação pelos infiéis que ousassem pisar aquele solo sagrado. Muitos o haviam feito, por devoção, promessa ou, como era o caso de Paulo, por desespero.

Sem que Paulo tivesse tempo de reagir, foi atacado violentamente por Abdel. Enrolaram-se no chão de terra batida, esmurrando-se e, numa mistura de ódio e desespero, degladiaram-se pela travessia daquele chão, dádiva de um mesmo deus, a quem ambos davam nomes diferentes. Paulo procurava Deus, Abdel defendia Allah.

Uma lâmina afiada saiu do bolso e, rasgando a carne num gorgolejo escarlate, derramou sangue fresco em solo sagrado.

A forma macabra em que foi encontrado aquele corpo fez manchete nos jornais dos quatro cantos redondos do mundo. A acompanhar a foto de um corpo ensanguentado e esquartejado estavam escritas, em hebraico, as palavras que foram encontradas num papel junto ao corpo e redigidas com o sangue da vítima:

“A partir de hoje eu serei rei, ditador, dono, guardião e carrasco, pois por ordem de Allah, serei o garante de que nenhum infiel voltará a atravessar a Estrada de Damasco.”

Paulo e Abdel cegaram, cada um à sua maneira e acreditaram ambos num deus que semeou na fé a verdadeira cegueira.

Balthasar Sete-sóis

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