Espaço intermédio

Num pequeno passo, lento e suave, aproximas-te. O corpo cansado que arrastas sem pensar no amanhã, esbarra no que não sabes e, por entre o vendaval de palavras avulsas, destróis e desencaixas tudo aquilo que te não cabe no ser desconcertado, revolto e atado à perene existência de um relógio de bolso que teima em permanecer parado.

Em passo firme continuas, chegando devagar e em silêncio, porque só conheces um caminho e não importa se é sinuoso, húmido, escuro, distante, desgastante ou difícil. E ainda que a estrada da tortura pareça não ter fim, eu sei que sem medo e sem coragem chegarás sempre até mim.

Agora, longe dos tempos que já não lembro, consigo tocar-te na mão áspera, mesmo sabendo que não consegues escrever palavras macias ou doces, continuo a acreditar que me vês sem filtros, ignorando os comentários acusatórios, ultrapassando juízos de valor que entre nós semeamos e derretes o frio em que me petrifico, calado, desligado, num abismo indolor.

Por mais que assuma que sou do ser humano a pior parte, eu sei que que aceitas, sem reservas ou porquês, fazer parte da parte que me cabe por pior que seja a rês.

Viras para mim o rosto lânguido, abraças-me os espaços vazios, os recantos despidos, as sobras puídas e os pedaços de entulho daninho perene e mudo.

Dizes-me que tudo ficará bem, falas-me de mares cheios de luz, de sorrisos sem sal, usando palavras sem textura ou caudal.

E, em cada desvelo abstracto, cresce-me a certeza de que a última coisa que quero é ter-te longe.

No meu caminho, naquele em que me perco todos os dias, abandono a esperança nos dias futuros e perco a fé nos homens de que sou feito, porque acreditar no porvir é coisa de gente com almas fortes e corações duros.

Por mais que tente, toldado pela raiva revolta que cresce por entre os inusitados equívocos, nada do que eu faça te afasta de mim, por mais que diga que chegou ao fim, por mais que atropele o que sentes, por mais que ofereça olhares ausentes, por mais que seja eternamente assim, eu sei que ficarás até ao fim dos dias ou da manhã em que as minhas mãos acordem frias.

Balthasar Sete-Sóis

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