Águas

Estava petrificada no centro da praça. Por entre a chuva que caía, grossa a fria, ninguém via a torrente de água que corria, salgada e quente, no seu rosto afogueado e escarlate.

A roupa colada ao corpo enregelado, era pele morta e dura de que não se poderia desprender.

Sentia-se trespassada por uma dor física, profunda, visceral, agonizante e, ao mesmo tempo, prazerosa.

Aquele caleidoscópio de emoções, cada vez mais confuso, diluia-se nas ruas desertas que, sem se saber como nem de onde, libertava um choro arrepiante, terno e inocente que ela não conseguia discernir de onde vinha.

E o peito sufocava, rasgava-se e doía. No corpo, sentia as facas que se espetavam e saíam para que, nos espaços, entre uma e outra punhalada, pudesse respirar sem perecer à tortura.

Não era a morte que a dominava, isso sabia, porque o sol rasgava ao longe as nuvens, com uma luz firme e afiada, espalhando esperança nos telhados onde, curiosamente, também descansava a sua casa.

De repente uma punhalada, funda e violenta, quase a derrubou. O peito respirava cada vez mais rápido, a cabeça zonza, os sentidos perdidos, a confusão instalada, o chão a desaparecer, o céu a empalidecer, o norte perdido, a pulsação instável e o corpo a enfraquecer. Subitamente sentiu os pés serem arrancados do solo rugoso e foi abraçada por uma espiral de objetos, emoções, pessoas, acontecimentos e dentro dela rodou, viu passados, futuros e no momento em que tentava libertar-se foi projetada para o chão, caindo com um silente estrondo.

Espantosamente não sentiu dor.

Acordou estremunhada, confusa, completamente molhada, na cama encharcada. Tinham chegado as águas. Acordou o marido e disse-lhe:

– Vai nascer!

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