Medo

Sentado junto à margem do rio, ouvia o cantar primaveril dos pássaros, na água que corria fresca e sem destino. Uma pequena rã, temendo virar presa, mergulhou no líquido translúcido quando se apercebeu da sua presença. Para ele, tudo era fantástico, cheio de vida, de cor e merecedor do mais profundo respeito. À luz dos seus olhos a natureza morta não existia, cada coisa tinha a sua alma e a sua essência.

Lembra-se bem do miúdo que ali passava tardes inteiras, contemplando o que de mais singelo e belo o universo poderia oferecer.

Recorda-se que, certa vez, deu por si a olhar uma pequena e puída pedra, fixamente. Naquele dia, sentiu uma vontade imensa de fazer como os outros miúdos. Vontade de segurar com firmeza aquela pedra, de atirá-la o mais longe que conseguisse para testar a força dos seus braços, ou então, atirá-la rasante pela água, fazendo-a saltitar várias vezes até se afundar. Mas também tinha medo. Tinha medo de atirar a pedra, medo de privá-la da companhia das pedras que a circundavam, medo de retirá-la da cama de terra onde dormia, das sementes que dariam lugar a flores na primavera. Tinha medo, medo de afogá-la no fundo do rio, de atirá-la para longe de tudo o que era seu, de asfixiá-la, de condená-la a uma existência sem sentido. Medo que ela acordasse junto de outras pedras, outra terra e outras sementes que, na primavera, dariam lugar a flores que não eram suas. Tinha medo, medo de desterrá-la, medo que ela sentisse saudade, medo que ela tivesse medo dele.

Hoje, já velho, sentado junto ao rio que o viu crescer e onde as pedras não têm sentir, sabe que o medo é um bicho e que, por medo de ter medo, não fez mais do que existir.

Categories Sem categoria

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close