Abandono

“Como eu gostava que entendesses.

Acordei, todos os dias, na esperança que conseguisses ver para além de ti, do teu cansaço, da pensão de alimentos que o pai, reiteradamente, se atrasa a pagar, dos teus problemas no trabalho, da tua colega que quer subir à força na empresa, do vizinho de cima que não paga o condomínio.

Já tenho dezasseis anos mas a nossa relação umbilical foi-se quebrando, não porque o cordão se rompeu, mas porque o teu umbigo é, hoje, maior do que eu!

Achas que não tenho problemas, desvaloriza-los, sem perceberes que, por menores que sejam, são o meu mundo e alastram-se em mim, porque me falta o antídoto do teu amor, para apaziguar esta minha dor.

De amores nada entendes. Da chaga que me dilacera o coração, apenas conseguiste dizer que o que não falta para aí são miúdas e que tenho tempo para namorar. No que concerne a amores eternos, és profundamente ignorante. Desconheces que quando eles vêm e não são correspondidos, mergulhamos numa profunda e sombria agonia que nos sufoca, transformando em noite o que era dia.

Esforcei-me, juro! Coloquei no meu quarto a música em altos berros, na esperança que tomasses em atenção a letra e que arrombasses a porta com um abraço onde pudesse libertar, enfim, o mar interno em que me afogo.

Mas de olhar irado, gritaste-me para que baixasse o som, porque te doía a cabeça e porque os vizinhos não tinham de ouvir aquilo que dizes não ser música, mas apenas barulho.

Abandonaste-me aqui mesmo, dentro daquilo a que chamas ninho, sem o teu regaço ou um qualquer gesto de carinho.”

Pousou a caneta, dobrou a folha, colocou tabaco e pedra na mortalha, fumou friamente e decidiu partir sem destino, sem retorno no caminho. Pendurou-se. Sentia-se, profundamente, sozinho!

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