Resposta

[continuação do post anterior]

Afonso tinha apenas doze anos e o mesmo nome de seu avô. Estava sozinho na biblioteca, local mágico onde os livros repousavam, libertando o inebriante cheiro a liberdade e a conhecimento.

Pegou, aleatoriamente, numa obra de capa dura e sentiu que havia algo dentro. Sentou-se à mesa, retirou do interior do livro um envelope que tinha inscrito um nome igual ao seu e, sobre o tampo de mármore, esventrou-o.

Depois de ler aquela missiva, parou um momento, segurou na caneta que dormia sobre a pilha de folhas cândidas, retirou uma e decidiu escrever:

“Avô, sempre tiveste um jeito tremendo para as letras. Lembras-te que foste tu quem me ensinou a escrever o meu nome? E estiveste ao meu lado quando escrevi a minha primeira carta de amor, dirigida à minha mãe!

Sabes, por vezes odeio-me e recrimino-me por todos os disparates que faço. E fico destroçado de cada vez que tiro uma má nota, por não ter estudado mais. Mas depois lembro-me que me ensinaste que somos pedaços de imperfeição, que devemos aceitar os nossos erros e aprender com eles porque, de cada vez que o sol cai e se apaga, crescemos um pouco mais.

Ensinaste-me tudo sobre o amor, nas palavras amigas nos momentos de tristeza, no olhar meigo nos momentos de insegurança e nos abraços cheios nos momentos de solidão. Dedicaste a tua vida a amar os outros e nessa tarefa ninguém te superou.

Nunca te vi dominado pela cólera, por isso, chego a perguntar-me se tens apenas um coração. Acho mesmo que tens vários, no local onde nós temos as vísceras.

Amo-te.”

Às escondidas, colocou o bilhete no livro que estava sobre a mesa-de-cabeceira do avô, na esperança que ele o encontrasse na manhã seguinte, que acordou chuvosa e negra.

Mas o livro, esse, nunca mais foi aberto.

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