Amor

Estava sentado na sala e à sua volta os seus milhares de livros, amontoados. Preparava-se para a mudança e daria a todos aqueles companheiros, um espaço maior e mais confortável, numa casa onde começaria de novo a velha vida.

Sentou-se à mesa, de mogno maciço e bem ornamentada que havia sido do seu avô, e passou as mãos pelas veias macias e gélidas do tampo de mármore. Segurou a caneta, puxou de um papel, branco como uma noiva em dia do juízo final, e escreveu:

“Perdoa-me a falta de jeito para a conjugação de letras que formam palavras e frases e linhas e parágrafos que deviam dizer alguma coisa mas que não dizem absolutamente nada.

Perdoa-me as vezes em que te desprezei, em que te gritei e tive uma vontade horrenda de acabar com a tua vida, por achar que não me merecias, por eu não te merecer.

Perdoa-me por todas as vezes em que não te amei, pelos carinhos e pelos beijos quentes que não te dei, não por falta de vontade, mas porque magoar-te era a minha única verdade.

Perdoa-me por não ter sido o que prometi, por não te deixar sorrir quanto desejarias, por me ter esquecido que quanto mais te esquecia, mais tu, lentamente, me morrias.

Se nos voltarmos a encontrar, perdoa-me e deixa-me voltar a ler esta carta, mas só quando eu for velhinho e a saudade me rasgar as vísceras que trago no coração.

Sabes, é que só me ensinaram a amar o próximo e nunca me ensinaram a amar o próprio, mas garanto-te, tu serás sempre o meu primeiro amor, e esse é inesquecível.”

Selou com saliva o envelope, colocou-o dentro de um dos livros, desviou o olhar para não reconhecer a capa esperando, dali a muitos anos, voltar a encontrá-lo. Afinal de contas, estava endereçado a si.

[Continua…]

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