Olhos

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de observar na candura da inocência, as coisas que os adultos já não vêem, umas vezes por apatia, outras por mera displicência.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de ignorar o tempo que passa devagar, de querer ter pressa no futuro, de olhar com atenção a primavera, mãe das mais belas flores e dos seus delicados odores.

Gostava de voltar a ver as joaninhas, as abelhas em busca do mel, o som melodioso dos pássaros, libertos das gaiolas onde os adultos, ignorantes, teimam em condenar a sua existência, apenas e só porque não percebem que viver em liberdade, faz parte da sua essência.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de ignorar a ganância, a ambição, a maldade, a maledicência, a morte, e as intrigas familiares que, por terem demasiada audiência, transformam o ódio no sentimento mais forte.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de ver estradas na metrópole imaginária, construída no muro do meu quintal, onde guio, com as mãos, os pequenos carros que minha mãe compra naquela mercearia ordinária e de ver, com vida, todos os soldados de plástico verde, comprados em sacos e com quem faço autênticos filmes de guerra, dentro da minha mente.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de ser ninja e perito em todas as artes marciais, de ser cowboy, de montar a cavalo e disparar como ninguém, de ser polícia e de vencer o mal para, enfim, imperar o bem.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de correr atrás de uma bola, de passar horas a pedalar deixando extenuada a bicicleta, de me divertir com um saco de berlindes ou lançando o pião, cantarolando, a sempre melodiosa, “Cinderela” de Carlos Paião.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, quando o primeiro beijo era mágico, o primeiro amor era eterno, e as cartas apaixonadas e melosas, não se arrancavam do caderno.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de voltar ao tempo em que dizer um palavrão não era rotina mas, porventura, a mais perigosa e reprovável transgressão.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, de sentir a minha mente acelerada de adrenalina ao rever os meus heróis de desenho animado, nas manhãs de sábado em que o tempo corria, quase sempre, parado.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos, não por sofrer de cegueira ou de qualquer outra deficiência, não porque queira voltar à infância ou sequer à adolescência.

Gostava de voltar a ver o mundo com os teus olhos porque ser adulto é perder a essência, é condenar a vida à decadência, já que existir sem transparência é apenas e só, consequência.

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