Epifania

Nas mãos o envelope selado pelo medo.

Ele, especado à porta de casa, sabe que lá dentro está a doçura daquilo a que chama lar, pois quando escancara a porta, sente o calor que se sustém pelo isolamento térmico chamado amor. A família é sua maior fortuna, a ambição de uma vida e, para sempre será una, mesmo que a batalha já esteja perdida.

Nas mãos o envelope lacrado, sem presente nem passado.

Cá fora, na rua outonal onde os pés se transformam em chumbo, contempla as coisas que sempre ignorou. Não se recorda de ter desfrutado, por uma vez que fosse, de todas as cores com que ao longo do ano se pintam as árvores e os canteiros com flores, nunca parou para lhes sentir o toque sedoso nem para ouvir o cantar dos pássaros que, sabe ele, são exímios compositores.

Nas mãos o envelope fechado em nome de tudo o que lhe é mais sagrado.

Na sua cabeça as palavras do médico, afirmando que a sua situação é grave e que pode provocar um sofrimento atroz, porque ainda não há medicamento que trave aquele bicho sem voz.
Pode viver por anos, meses ou apenas mais dia, mas só o saberá se abrir o envelope onde guarda a distopia.

Nas mãos o envelope manchado pelas lágrimas da certeza.

Nesse átimo, rasga a missiva em mil pedaços, sem raiva, ressentimento, revolta ou qualquer outro sentimento.
A sua vida só tem passado e do futuro nada sabe, terá de viver o presente, para que o sonho não desabe.
Decide que a partir dali viverá cada dia, não como se fosse o derradeiro, mas abraçando, um a um, como se fosse, eternamente, o primeiro.

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