Suástica

Era o seu segundo dia no campo. Por todo o lado, o cheiro a corpos imundos, urina, fezes e também aquele cheiro a morte que se entranha nos objetos, nas roupas e em todos os poros da pele, tornando-se impossível de eliminar.

A voz, estrondosa, do seu General rasgava-lhe, violentamente, os tímpanos.

– Vamos exterminar estes montes de esterco. Levem, para a ala direita, a merda dos ciganos. São iguais aos outros, não passam de lixo. Preguiçosos, inúteis, não servem para nada. Juntem-nos com cabrões dos judeus e com os pretos. – Cuspiu o General com desprezo contra o grupo que passava. – Vocês enojam-me.

Nessa manhã, tinham entrado no campo mais 4000 pessoas. Entre elas estavam, ainda, indivíduos com deficiências várias e homossexuais. O General aproximou-se do grupo e vociferou:

– Fechem esses imprestáveis no buraco da ala esquerda. Aleijados, filhos da puta. Nem para trabalhar servem. – Num átimo, apalpou os glúteos a um dos prisioneiros e em tom jocoso gritou. – Gostas não gostas, maricas? Se fôssemos todos como tu, as nossas mulheres passavam fome e o mundo ficava sem crianças. E o que era o futuro do país, minha florzinha? – Retirou o próprio pénis para fora e disse – Gostas? Gostas? – Arrumou nas calças aquele excesso de si, atirou o homem ao chão e desatou a pontapear-lhe a cabeça, até este ficar inanimado.

O jovem soldado sentia-se a enlouquecer. Fome, maus-tratos, trabalhos forçados e a suástica por quem nutria profunda vergonha.

Para ele, eram todos gente, todos homens feitos da mesma massa, todos pessoas que mereciam respeito, todos grão da mesma mó.

Na penumbra da noite, revoltado, entrou na camarata e disparou contra a cabeça do General. Colocou a arma na boca e, no travo a pólvora, saboreou, por fim, o prazer da dignidade.

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