Porta

Entrou em casa e deixou-se cair no sofá, extenuado, depois de mais uma longa caminhada matinal. Foi uma manhã em tudo igual às outras. Da cidade e dos homens, mais do mesmo.

Assim que cruzou a esquina do quarteirão, sentiu, exalar por todo o lado, o cheiro a urina e a fezes que se acumulam pelos cantos da cidade, e que é libertado pelo breu aveludado da madrugada.

Passou junto ao café, pisou as pontas de cigarro que ali se acumulam, no chão, junto ao cinzeiro de pé alto, onde repousa a areia solitária que aguarda pela vénia fumegante das beatas que os donos não enterram.

Entrou no jardim e, logo no primeiro banco à esquerda, está o velho do costume, com a roupa do costume, a ler o jornal e as notícias do costume.

Acelerou o passo, viu uma criança sorridente que seguia na sua direcção e, num átimo, a sua mãe puxou-a para si, evitando qualquer brincadeira ou toque entre ambos.

Olhou em redor, certificando-se que ninguém reparava nele, penetrou numa zona mais recatada do jardim, libertou a bexiga de encontro a uma árvore e sentiu o habitual desconforto da urina fumegante que salpicava e escorria, rápida e morna, na sua direcção.

Já no regresso, passou junto à paragem do autocarro, agora cheia, e sentiu nas pessoas o stress, a desesperança, o medo e a falta de amor que transportam no peito e compadeceu-se pela forma como são obrigadas a vender, todos os dias, uma parcela da sua, já de si, triste existência.

Mas isso foi lá fora, do lado de lá da sua porta. Ali no sofá, enquanto sentia o peso dos olhos dominá-lo, ouviu o seu nome, sentiu o leve afago do dono na sua cabeça, e deixou-se desabar para mais um dia de cão.

Categories amizade, Amor, escritor, escrita, poeta, jornal, mentira, silêncio, solidão

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