Mentira

Atirou para o chão, junto à porta do café, a beata húmida e amassada pelos nodosos e amarelados dedos. Cuspiu os rancores matinais, entrou e folheou o jornal diário do dia 2 de Abril, daquele ano em que a reforma veio dar-lhe a paz que ansiava desde os catorze anos.

Na capa do jornal, em vermelho vivo, estava o título “Vem aí a terceira guerra mundial”, e no subtítulo, “Presidente dos EUA afirma que o líder Norte-Coreano não passa de um atrasado mental e deve ser abatido como um cão raivoso”.

Nada de novo. Lambeu o dedo, seguiu para a página de economia e deparou-se com a entrevista ao líder de uma gigante cadeia de supermercados, onde este afirmava que “os salários baixos são imperativos. É necessário criar pobreza e miséria. São elas a única forma de podermos enriquecer brutalmente”. Virou a página, pousou o olhar nos anúncios de convívio e sorriu: “se és um incapaz e nem uma mulher consegues engatar e fornicar como deve ser, então liga-me”.

Quando estacionou na necrologia leu: “A família Mendes anuncia o falecimento do seu patriarca, já velho, inútil e acamado, Francisco Mendes. Graças a Deus! Já cá não andava a fazer nada, só dava trabalho e assim deixou de sofrer. A cerimónia fúnebre realizar-se-á amanhã.”

Começava já a ressacar por um cigarro, fechou o jornal e na última página leu: “informamos os nossos leitores que a manchete de ontem era apenas uma brincadeira alusiva à efeméride do dia 1 de Abril. Esperamos que não leve a mal e que possamos continuar a merecer, diariamente, a sua confiança.”

Saiu do café, acendeu o cigarro, respirou o ar fresco da manhã e sorriu com a brincadeira, sentindo-se um tolo por ter acreditado na notícia que dizia “Estado exige uma justiça igual para todos.”

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