Dias

Na candeia dos dias seguro o teu amor, escuro e gélido. Nesta chama que dentro do meu peito freme, sinto o calor que a palavra não apaga e que o beijo não aquece.

Há uma pedra em cada gesto e os atabalhoados desvelos não se erguem para se mostrarem maiores do que realmente julgam ser.

E eu, seguro como posso, o vento que te quer apagar. Uso as mãos, o corpo e a alma para abrigar a chama que subsiste neste pavio, cada vez mais curto e enfraquecido.

E sempre que o vento pára , sopro devagarinho neste amor que não quero deixar morrer. Sei que a liberdade do vento é perigosa. Se em demasia, leva a uma morte inevitável e fulminante, se se ausenta, mata pelo sufoco, que amor sem ar, não respira e perece devagar sem se dar conta.

Reside o meu segredo na forma como o alimento, no vidro com que o envolvo, no vazio que dele liberto para que possa respirar. No combustível que lhe dou, evito que arda de forma fugaz e resplandecente para se apagar no átimo em que a minha atenção se esgotar.

Volto ao início, e lembro-te que na candeia dos dias seguro o teu amor sombrio e gélido e tu, de mãos vazias, pousas a candeia, libertando-as do peso que à sorte, abandonas.

A esse abandono, entrego o meu cansaço e assim, sobra apenas o pavio negro e sem chama, de um amor que ardeu até ao fim.

2 thoughts on “Dias

  1. Avatar

    Brilhante, Baltazar!! A sua escrita é um orgulho… ?

    1. Baltasar Sete-Sóis
      Baltasar Sete-Sóis 20 de Março, 2018 — 23:40

      Muito grato Célia!

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