Terramoto

– Não sei bem como tudo começou, mas lembro-me que a terra tremeu, as gentes que se movimentavam à minha volta correram desordenadamente, libertando os gritos mudos de uma dor alheia e indecifrável, os carros pararam e foram abandonados pelos donos, os edifícios ruíram e uma nuvem de pó tornou invisível a única realidade que conhecia. Nunca vivi noutro local, nunca conheci outras ruas, outras casas ou outras gentes.

Quando se deu o terramoto, permaneci no mesmo local durante dias, sem comer, sem dormir, alimentando-me da dor que me rasgava o peito e da pouca água salgada que escorria pelas caleiras que desaguavam no buraco onde me afundei. E ali, sem me mover, mal respirando, esperei que a dor que me dominava se acalmasse e me libertasse da treva.

Por vezes ouvia alguém chamar o meu nome e, tanto me parecia que esse chamamento era real, como me levava a acreditar que não passava de uma ilusão provocada pela angústia, pelo desespero e pelo cansaço. Se alguém me procurava, se era a equipa de resgate…não sei. Os meus olhos foram selados pelo sal, a audição diminuída pelo estrondo ensurdecedor e a voz roubada pela impotência.

E agora, que o mundo ruiu, não sei mais o que fazer e estou petrificada à espera que a espessa poeira decida repousar.

– E lembra-se do que aconteceu exactamente antes desse acontecimento traumático? – Perguntou-lhe o psiquiatra.

– Lembro-me perfeitamente Doutor. Estava com o meu namorado, na véspera do nosso casamento, e perguntei-lhe se ainda me amava. – Respondeu-lhe ela.

– E ele o que respondeu? – Indagou o médico.

Amarrada à cama, silenciou-se por um momento e uma lágrima grossa e lenta desceu-lhe pelo rosto. Engoliu o comprimido de forma vigorosa e respondeu:

– Ele? Disse-me que não, Doutor! Ele disse-me que não!

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