Carta

As mãos geladas seguravam a velha chave com que abriu a pesada porta, que sustinha o odor mórbido e aconchegante daquele eterno sono. Procurou o papel amarelecido pelos dias mortos, no silêncio perverso que corroía as palavras e segurava os fragmentos delicados, degradados e frágeis que compunham a derradeira missiva que da estreita fresta, retirou.

Acariciou a roupa envernizada, sedosa, rectilínea e mergulhou no desabafo que a avó lhe deixou no dia em que a vulva se rasgou, para que a luz, o pecado e a culpa, se abatessem sobre si.

“Perdoa, até ao fim dos dias.

Ainda catraia, o meu avô dizia que quando o mundo estivesse ligado por pontes, a humanidade ruíria. Durante anos temi pontes, sem me aperceber que o que deveria temer era o espaço vazio. Mais tarde entendi que as pontes não destroem o mundo, mas sim a falta delas, pois nesse nada desocupado, que rasga o ar e abre espaço, morre o amor e cresce a indiferença, e essa é a única ponte que a todos destrói.

Ama, com o coração todo. Sempre!

Por amor somos tanto e tão pouco. Nesta minha passagem pelo mundo, saltei nas poças de água a que chamam décadas, nadei no rio deste século e atravessei o mar do milénio (que só é privilégio de alguns) e do amor, sempre o mesmo. Para mim, acabaram-se as angústias dos amores falhados e a ansiedade dos que hão-de vir, mas rogo para que nunca esqueças que depois de um grande amor, outro maior chegará.

Que as costas voltadas entre mim e a tua mãe não impeçam que estas moribundas palavras cheguem até ti.”

Colocou a carta, delicadamente dobrada, debaixo da velha arca de madeira, fechou com amor a vagarosa porta do jazigo, e sob a chuva gélida dos dias negros, perdoou.

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