Guerra

02:15

As mãos, estranhamente, tremiam. E, enquanto ele dormia, ela tentava acalmar aquela hipotermia desenfreada que só o trauma poderia despoletar. Durante os últimos 40 anos ela viu e ouviu a guerra na sua cama e sabia de cor cada episódio. Durante o dia, esposa, durante a noite, enfermeira dos feridos e desmembrados soldados que o seu marido escondia no quarto.

02:21

– Matei um homem, matei um homem. – gritava em desespero. A AK-47, contava ele, sempre lhe ferveu nas mãos, gelava-lhe os ossos e imobilizava-lhe os dedos até ao tutano.

02:36

– Atira, atira, Fonseca, atira. – gritava ele, engolido pelo breu do mato, enquanto o medo lhe rasgava a espinha naquele quarto transformado em campo de batalha.

02:41

– É um miúdo, Gonçalves, o preto é um miúdo… Matei um miúdo, que Deus me perdoe. – dizia sufocado por um choro pejado de dor e de angústia naquela cama encharcada em suor, que em tantas noites foi trincheira.

A sua mulher sabia que aquele jovem, com não mais de 14 anos, apareceu de repente, negro como a noite, de arma apontada ao jipe onde o seu marido seguia com os camaradas e que este disparou por reflexo. Naqueles fatídicos instantes não viu o miúdo, mas o inimigo que lhes cravaria a vida de balas se não fosse abatido.

02:53

– Meu sargento, granada, granada! Ali, à esquerda, corram! Meu sargento, o Pereira e o Gomes estão mortos. Sargento, Fonseca, Santos. – ninguém. Gritou pelos colegas e só obteve como resposta um agonizante silêncio, que oferecia uma sensação de total impotência e a solidão do abandono que homem algum deveria sentir.

3:19

As mãos estranhamente deixaram de tremer, o ponteiro do relógio parou e, preso a ele, ficou para sempre a hora em que a guerra acabou.

1 thought on “Guerra

  1. Avatar

    Absolutamente arrepiante!
    Obrigada Baltazar ?

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