Diálogo Omnipotente

Honestamente, nem sei porque estou escrever-te, logo a ti que foste sempre tão céptico em relação à minha existência, queixando-te de seres para mim um enteado, logo eu que, como todos sabem, sou Pai, não sou padrasto. 

Podia ter-te escrito uma missiva, romântica e à moda antiga, mas preferi mostrar-te que escrevo sempre direito, ainda que não existam linhas, direitas ou tortas, nesta coisa das redes sociais.
Deves estar a perguntar-te “porquê hoje, porquê agora?”. Bom eu tardo mas não falho e, uma vez mais, não falhei.
Bem sei que são quatro da manhã e que provavelmente não estás com paciência para conversas filosóficas mas, como sabes, eu não durmo.
Dir-me-ás que cada um sabe de si, mas eu, sei de todos e por isso venho cobrar-te todas as vezes que evocaste o meu nome em vão e todas as graçolas que em meu nome proferiste.
Devias ter aprendido, lá naquela igreja onde os teus pais venderam a tua infância, o adágio que diz “muitas graças a Deus e poucas graças com Deus”. Pensei que, a fome em África  ou o facto de teres ficado limitado após aquele acidente de mota, fossem suficientes para perceberes que tenho um sentido de humor de merda.
Contudo, não pretendo filosofar contigo. Em abono da verdade pouco me importa aquilo em que acreditas. Só te contacto para colocar-te uma questão.  Ainda te lembras da última coisa que disseste à tua mãe?
Acordou já o sol raiava no céu. Sentiu um grito mudo  prensar-lhe o peito. Tinha adormecido com o computador em cima das pernas. Invadido pelo pânico, precipitou-se, rapidamente, para o quarto da mãe e veio-lhe à memória a última frase que lhe disse “até amanhã se Deus quiser”. Abriu a porta do quarto e, num esgar de dor, percebeu que Ele não quis!

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