Fui

Fui restolho abandonado na vereda em que a paixão ainda me deixava sentir o odor sedoso da primavera, o entulho metálico abandonado por entre a erva daninha que oxida a cada impiedosa chuva nos dias mansos desta existência nostálgica e a lixeira que alimenta os roedores das almas negras subjugadas à vontade inabalável do ocaso. 

Fui tantas coisas que já nem me lembro. Hoje talvez não seja nada, talvez não seja muito, talvez seja tudo. De entre o que sou e o que não sou, sobra-me pouco. Não sou são nem sou louco. Talvez seja a dobra do avesso dessa voz que já não ouço. 
E nos dias em que me perco ou nas noite em que a Deus me confesso, sou mais do mesmo. 
Se me recordo, já não me lembro, se me escrevo, não mais me leio e quando quero ver-me, não acordo. Sempre  que me amei, traí. Em cada lágrima que derramei, fingi. E de todas as vezes em que me arrependi, não me redimi… 
Em mim uma batalha freme, inútil e perene. Entre o que fui e o que não quero ser interrogo-me e julgo-me sem respostas e sem justiça, que estas são demasiado para tão pouco homem. 
Sou apenas passado e futuro nunca  serei. Do que fui, não quis ser, do que sou, fugi, do queria ser, nunca acreditei. 
No efémero enleio em que me tornei, pergunto se ainda me ouves, se aí permaneces como sempre, gélida, pálida,  silenciosa, sepultada. Se o teu corpo de mármore, inerte e deitado, ainda me espera, rodeado pelos desvelos do breu para sempre soterrado pela raiz. 
Se por acaso me encontrares por aí, desse lado do mundo que agora é teu, vagueando, perdido, abandonado ou esquecido, não me perguntes de onde vim, pois nem eu sei para onde fui. 

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Código de autor – Lei 50/2004

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