Encontros

Ela fere-se todos os dias. E aquela ferida, latejante, aberta e viva que carrega no peito jamais cicatrizará. 

Não ganha a vida. Mata o desespero de uma existência que não lhe deu mais do que homens sujos, velhos e solitários, comprando a dignidade do seu corpo com uma orgia de notas travestidas de humanidade. Sempre atacou ali, naquele sítio, naquela rua escura onde se sente em tantas noites puta, em outras tantas porca.
Ele passeava-se de mão dada com o álcool pelo breu que dá luz aos lampiões da cidade.
Proxeneta das vontades impostas pelo próprio corpo, oferecia-o gratuitamente a quem o quisesse usar, pagando sempre a quem o não quisesse desejar.
E em todas as infectas ruas, becos e ruelas, ele se sentia em tantas noites macho , em outras tantas reles.
Nunca acreditaram em Deus ou em finais felizes. O “era uma vez” nunca foi para eles o início de uma qualquer história que pudesse ser a sua.
Quando esbarraram olhares, ela rasgava dor fingindo lascívia naquele corpo que um dia foi seu, mas que agora pertencia a um número infindável de homens saciados.
Quando permutaram odores, ele não sabia em que compasso do tempo se perdeu, fingindo desejo quando aos apetites e à escassez se rendeu.
Ela não falou. Ele não falou. Ela não desviou o olhar e ele o dele não desviou. Ela não o censurou e ele não a usou.
Ela, debaixo da roupa nada trazia que pudesse cobrir o seu coração espartilhado.
Ele, debaixo da pele nada sentia que libertasse aquele  promíscuo vazio.
Ela não chegou a dizer o preço. Ele não lhe viu o avesso.
E uma centelha de esperança nasceu entre os dois..
Ele errante, ela sofrida, ele sozinho, ela usada, ele quase morto, ela renascida.

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Código de autor – Lei 50/2004

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