Muito se tem falado, nos dias correm, no programa SuperNanny, o que não me surpreende num país de gente cujo leque cultural é, ainda, paupérrimo.

De facto, embora não tivesse acompanhado o programa mais do que uns minutos, não podemos estar coniventes com a exposição a que estão a ser sujeitas crianças que devem ser protegidas, quer pelos pais, quer pelas instituições que zelam pelo seu bem estar físico, psicológico e social.

Até aqui é possível que estejamos quase todos de acordo. Contudo, esta posição, quer dos pais quer público em geral, esbarra na enorme hipocrisia e na falta de valores que agora todos fingem ter.

Há muito que defendo que os programas de televisão feitos por, ou tendo por base crianças, deviam ser alvo de uma rigorosa avaliação por parte das instituições que agora se insurgem contra a psicóloga que está nas bocas do mundo.

Não me recordo de alguma vez, pais e instituições, se terem insurgido contra programas cujo enfoque é a demonstração de talentos por parte de crianças, em pleno período escolar.

Nesse campo, todos aplaudem de pé os talentos das criancinhas sem se revoltarem contra galas que são, algumas delas, transmitidas em direto aos domingos à noite, que acabam já após as 00:00h e que ocorrem em pleno período lectivo.

A que horas estas crianças se deitam depois de terminarem as galas? Quantas horas dormem? Irão elas à escola no dia seguinte, ou têm a falta justificada pelos pais com a conivência das instituições de ensino, que deviam denunciar tais situações? E os ensaios exigentes que têm de realizar durante a semana? Afetam ou não o seu rendimento escolar? E ainda que os programas sejam indeferidos, afetam ou não o rendimento das crianças nas escolas? Porque não são estes programas realizados durante as férias de verão? Não seria mais profícuo, inclusivamente para as próprias crianças? E elas, quererão verdadeiramente estar ali, ou correspondem simplesmente a um capricho dos pais?

Não sabemos! E para os pais pouco importa, porque o que é verdadeiramente importante é poderem exibir as suas coqueluches perante a família, os amigos, os colegas de trabalho, os vizinhos e as pessoas do café onde tomam o pequeno almoço todos os dias.

Neste Portugal dos pequeninos fingimos ter moral para, única e simplesmente, escondermos debaixo do tapete a imoralidade com a qual nos alimentamos todos os dias, na esperança que ninguém nela repare.

Enquanto sociedade falta-nos muito e por cada vez que apontamos o dedo aos outros, tornamo-nos em SuperNanny’s sem disso nos darmos conta.

Publicado em Bird Magazine.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

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