O despertador tocou, mas não ouviste.

Estás cansado, stressado e adormeceste mais uns minutos.

Levantaste-te num ápice. O banho saiu e metade dele estava frio. É inverno e a botija decidiu esvaziar-se por completo.

Que raio de azar.

O carro não pegou. Parece que a bateria morreu. Porcaria de vida, mais uma despesa proibida.

Corres para a paragem e o autocarro já passou. Resta-te esperar de pé junto à placa numerada.

Começou a chover e tu sem chapéu ou gabardina.

Mesmo à tua frente, enche-se uma poça de água e lama e, a cada carro que passa, és presenteado com mais um banho sujo.

Que drama!

Finalmente no escritório. Atrasado para a reunião. O chefe dá-te conta do juízo, como se aquilo que ganhas não fosse só por si um prejuízo.

O trabalho é rotineiro e mal pago. Tanto menino abençoado e só a ti te calhou ser azarado.

Papéis, correio eletrónico e o telefone que vibra sem parar.

Hoje, nem tens tempo para fumar.

Felizmente, tinhas um engate agendado para o fim do dia.

Sempre dava para desanuviar, mas a fulana ligou a desmarcar.

Estava nos dias difíceis e sem paciência para te aturar.

Que raio de vida.

Que raio de azar.

Tu sentes que não mereces nada daquilo que o universo te está a dar e que tanta injustiça te começa a sufocar.

Sim, tu, que te queixas da vida, és o mesmo que deixa o cão preso, um dia inteiro, a uma corrente de metro e meio.

Artigo publicado no Repórter Sombra.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

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