Deixámos nas escuras montanhas uma parte de nós, lastro de almas quebradas entre o apego e o desespero sem voz.

Saímos sem retorno, tentando entregarmo-nos nos braços daqueles que, pela palavra da fé, dizem ser nossos irmãos, mas que os recolhem sempre que em busca de ajuda, lhes estendemos as mãos.

Somos vítimas de um mal profundo, somos migrantes, refugiados, acusados, por todos, de não sermos mais do que vis terroristas infiltrados.

Só encontramos olhares de cólera incandescente, erigindo muros e redes que a fraqueza da fome não deixa ultrapassar.
E o sofrimento é pão, de longe atirado, e é nele que fazemos, na calada da noite, a digestão dos dias maus que só o desespero inocente consegue calar.

Vivemos vidas diferentes, falamos línguas estranhas embora habitemos todos num só mundo.
Procurámos a salvação, mas acabámos esquecidos na cidade das tendas onde a fome e a sede derrubam mais um corpo moribundo.

Somos seres errantes, itinerantes, parasitas e prisioneiros sem visitas.

Publicado em Bird Magazine.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

Poderá gostar também de...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *