Um homem morreu, na rua ao lado. E a poucos metros dali, dobrada a esquina, ninguém deu por nada.
A alcoviteira, debruçada na janela, depressa gritou e esbracejou que o homem se havia finado.
Na rua ao lado, as cartas lambidas caíam com violência sobre a mesa do café e, entre mais um gole de cerveja e um arroto, todos ignoravam que na rua ali bem perto, jazia um homem no chão.

“Deve ter sido o coração” especularam os curiosos que não se recordavam de tê-lo visto, uma vez que fosse, naquele bairro tão pacato.

Dobrada a curva, onde ficava o café, estava uma jovem casadoira na modista, aperfeiçoando o vestido que a levaria ao altar dos arrependimentos, sem saber que lá fora estava um homem já cadáver.

Não tinha nome, apenas chão, aquele chão onde tombou, que acarinhou com a violência de um beijo sôfrego e desesperado que se dá pela primeira vez.

Chegou o carro que o levou, ninguém sabe para onde, ninguém sabe para quem.
Na rua ao lado tudo continuou sereno na frescura da sombra oferecida pela esplanada.
Hoje morreu um homem e ninguém deu por nada.

Artigo Publicado na Revista Online Feniks Today ✧ Revista de Direitos Humanos.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

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