Levava no corpo o cheiro pestilento do petróleo derramado e, das suas mãos, deixou cair um fósforo assassino e, através dele, ateou o fogo que transportava no peito.

O desespero apoderou-se da aldeia, nas ruas as pessoas corriam com a aflição no rosto gritando para os céus “acudam que é fogo posto”.

Aquele ódio em forma de homem transportava prazer na destruição e o fogo que por ali espalhou não foi distúrbio ou demência mas a personificação da maldade na sua mais profunda aberração.

Mulheres chorosas embalaram crianças e os corajosos homens, que lutaram no inferno, transformaram-se em corpos diluídos por entre a dança das línguas flamejantes, como lágrimas salgadas numa chuva de inverno.

O fumo tornou-se num véu onde a respiração dos corpos aos poucos se contraiu. Uma cor cinza e densa dominou o céu e entre gritos de recuo e falhadas fugas, mais um bombeiro caiu.

Tantas vidas se perderam, tanto mal semeado, tantos foram os corpos queimados em mais um verão planeado.

Na casa a que chamávamos floresta, os pássaros livres cantavam, mas desse lugar mágico apenas restou um negro manto de desolação fumegante. Os pássaros não mais ouviremos cantar porque no silêncio solitário em que nos deixaram, ainda arde o que restou do nosso coração crepitante.

De onde vem tanto ódio? Que justiça para si reclamam?
E quando sobem a esse pódio, por que deus vil proclamam?
Apaguemos esse mal que destrói sem arrependimento.

Sejamos animal, farto de sofrimento.

Artigo Publicado na Revista Online Feniks Today ✧ Revista de Direitos Humanos.

Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

About Raul Tomé ☀ Balthasar Sete-Sóis

Raul Tomé é licenciado em Sociologia, Mestre em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e Pós-Graduado em Políticas de Igualdade e Inclusão.
Ex-cronista do Jornal Negócios, autor e co-autor de artigos científicos, colabora actualmente com a revista Repórter Sombra.

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